Quando entra no prédio da Câmara de Maringá, a professora aposentada Tânia Fátima Calvi Tait, 65 anos, lembra da estudante universitária que manifestava suas opiniões em faixas ou cartazes, quando essa Casa ainda funcionava na Praça Rocha Pombo.
“Naquela época (década de 1980), as sessões aconteciam à noite e costumávamos acompanhá-las quando havia algum projeto polêmico em pauta”, acrescentou Tait que, mais tarde, manteve o contato com os vereadores por meio das associações de bairros.
Em outra fase da vida, Tait volta a frequentar a Câmara Municipal como ativista em defesa das mulheres. Atualmente, ela é membro da ONG Maria do Ingá e da Marcha Mundial das Mulheres. Nesta função, ela registrou na memória sua participação no Programa “Fala Comunidade” onde os vereadores ouviram as demandas das instituições ligadas ao Movimento de Mulheres de Maringá.
“Há alguns anos, estivemos na Câmara, durante uma sessão tumultuada, onde discutia-se ideologia de gênero. Fiquei chocada ao ler nos cartazes “Ideologia Não” e pensei: “Será que essas pessoas tem noção sobre o que estão protestando?” Para quem milita contra a violência à mulher e o abuso sexual de crianças e adolescentes, impedir a discussão desse assunto é um absurdo. Esse ato revelou o lado mais hipócrita da sociedade porque, tempo depois, parte daquelas pessoas foram apontadas, justamente, como agressores de mulheres e crianças. Foi um momento muito pesado.”, comentou a professora.
Sobre a relação das entidades sociais e os vereadores, ela acredita que varia conforme a pessoa que ocupa a presidência. Desde o período da universidade até hoje, Tânia avalia que houve um revezamento entre épocas mais e menos favoráveis a esses grupos.
Em compensação, ela guarda com carinho a entrega do Brasão do Município pelo Legislativo quando era presidente do Conselho Municipal da Mulher, em 2019. “Nessa ocasião, coincidentemente, estávamos completando a centésima reunião ininterrupta desde a criação. A proposição foi dos vereadores Mário Verri, Carlos Mariucci e Onivaldo Barris em homenagem a todas as mulheres que presidiram o Conselho até aquele momento.”, acrescentou.
Embora o número de mulheres eleitas no Brasil esteja crescendo, Tânia Tait vê com ressalva essa mudança. Para ela, a quantidade não equivale a resultado porque parte dessas legisladoras não defende os interesses das mulheres. Além disso, os partidos políticos ainda resistem a incluí-las, de fato, nas suas siglas, transformando algumas candidaturas em “laranjas” para cumprir as regras. “É, por essa e outras atitudes reprováveis, que muitas pessoas dizem não gostar de política e a consideram algo “sujo”. Mas, precisamos entender que a corrupção na política é prática de maus políticos. Porém, participar da política é exercer a cidadania em nome de uma vida melhor e mais justa”, completou Tânia ao citar como exemplo a estipulação no preço do pãozinho e até as regras de financiamento para aquisição da casa própria.
Apesar da quantidade de motivos para a descrença na política e no futuro do Brasil, ela se diz cheia de boas expectativas sobre a atuação dos jovens e das pautas das mulheres.